Texto por: Webster Martins
“Marty Supreme” é uma versão mais potente de “Prenda-Me se For Capaz”. Ambos são inspirados em uma pessoa que realmente existiu, em alguém com muita lábia, que aplicava golpes e tinha uma vontade incessante de alcançar seus objetivos a qualquer custo. O personagem interpretado por Timothée Chalamet dá um verdadeiro show de atuação: é sagaz, arrogante e autodestrutivo, com uma necessidade constante de provar algo ao mundo. Ele entende o que é necessário fazer no momento exato em que precisa agir, e o filme faz questão de expor suas falhas e contradições, sem jamais romantizá-lo.
O ritmo do filme é ditado por Marty e por suas ambições. É frenético, transmite um senso de urgência sem parecer forçado e sem dúvidas, possui uma das melhores transições de cena que já vi. Os personagens coadjuvantes têm suas participações potencializadas pelas situações em que se colocam, sempre de forma muito carismática, formando uma sequência de absurdos conectados e totalmente imprevisíveis, no melhor dos sentidos. Isso traz uma carga emocional gigantesca ao filme, fazendo com que suas 2h30 de duração passem quase despercebidas, de tão envolvente que a trama consegue ser.
A narrativa é não convencional e não linear, assim como a vida real, uma existência vivida no limite, sem estabilidade, mas sustentada por uma fé cega de que o sucesso é inevitável. Essa escolha fortalece o aprofundamento psicológico e aproxima o espectador da instabilidade que define Marty.
A trilha sonora é de Daniel Lopatin, que é particularmente peculiar e dita a imersão de algumas cenas em momentos-chave do filme, utilizando arquétipos instrumentais não convencionais como o coaxar de sapos entre outros artifícios, com características de época. Além disso, há o uso de músicas populares do repertório estadunidense, um tanto óbvias e oportunas, como Alphaville e Tears for Fears, quanto escolhas menos evidentes, como Fats Domino, Johnny Ace, Midori Takada e Seigen Ono.
Josh Safdie, diretor e roteirista, é conhecido por escalar atores não convencionais em seus filmes. Desta vez, inclui Tyler, The Creator no elenco, creditado como Tyler Okonma, seu nome verdadeiro. Ele interpreta Wally, um taxista amigo de Marty que também joga tênis de mesa. Segundo o próprio Josh, o personagem foi escrito pensando especificamente em Tyler, o que levanta a impressão de que ele apenas imprimiu seu próprio carisma e personalidade ao papel. Ainda assim, é um dos coadjuvantes que mais chamam atenção: magnético e perfeitamente alinhado à atmosfera do filme e à dinâmica com Marty (Timothée Chalamet).
Destaque também para Odessa A’zion, que interpreta Rachel, par romântico de Marty no filme. Ela contracena muito bem com Timothée Chalamet, entregando uma atuação forte e emocionante, sendo uma das interpretações mais marcantes da obra. Kevin O’Leary, como Milton Rockwell, também não fica para trás, este é seu primeiro longa-metragem e ele praticamente interpreta a si mesmo: um empresário que almeja a expansão de sua empresa e se revela um completo babaca. A personagem de Gwyneth Paltrow funciona mais como um artifício narrativo para dar profundidade ao protagonista e mantê-lo próximo do personagem de Kevin O’Leary.
Fran Drescher interpreta a mãe de Marty como uma figura que utiliza desculpas domésticas para manter o filho por perto, misturando afeto, culpa e controle emocional. Sua performance marca o filme pela intensidade sonora e pela sensação constante de invasão. Abel Ferrara surge como um mafioso perigoso, de fala fria e ameaçadora, cuja presença é sentida mais pela tensão que impõe do que pelo tempo em cena. Mesmo com pouco tempo de tela, ambos se destacam nas cenas por telefone, nas quais o contraste entre intimidade familiar e ameaça criminal reforça o caos moral que cerca Marty.
Absolutamente cinema. Saí da sala chocado e satisfeito com tudo o que vi. É o tipo de filme que provavelmente veremos com frequência nas premiações, indicado a Melhor Filme do Ano.



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