Texto: Kessia Carvalho
Quando venho falar de “O Morro dos Ventos Uivantes“, quero deixar claro que a análise que irei fazer é apenas do filme enquanto obra cinematográfica. Não farei comparações com o livro, pois ainda não tive o prazer de realizar sua leitura.
No filme, acompanhamos a história de dois personagens, Catherine (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), que se conhecem ainda crianças. Catherine é filha de um homem que possui, até então, uma condição financeira relativamente instável. Heathcliff, por sua vez, é adotado por esse homem, não como alguém pertencente à família, mas quase como um objeto de posse da filha: alguém que é alimentado, acolhido e, posteriormente, transformado em seu faz-tudo.
Embora tenha afirmado que não realizaria comparações com o livro, é relevante mencionar que, na obra literária, Heathcliff é caracterizado como um personagem negro. Isso me leva a refletir que, ao optar por não manter essa característica no filme, a adaptação possivelmente evita o aprofundamento em questões raciais. Dessa forma, os abusos sofridos pelo personagem e a visão do abusador, marcada por uma lógica de “olhe como sou bom, afinal te dei um teto”, não são diretamente pautados sob a ótica racial.
Dito isso, confesso que inicialmente fiquei apreensiva com a escolha do elenco, especialmente em relação a Margot Robbie, por considerar que suas feições são bastante contemporâneas. No entanto, isso esteve longe de ser um problema. A caracterização, aliada à entrega da atriz, é extremamente eficaz, a ponto de não questionarmos se ela pertence ou não à época retratada. O mesmo ocorre com Jacob Elordi, que se mostra muito sólido em seu papel, com uma atuação consistente e uma caracterização impecável.
O filme trabalha de forma intensa a linguagem da sexualidade, desde sua descoberta até os fetiches e o desejo impulsivo. Aqui, deixo meus sinceros elogios à diretora, pois, mesmo com cenas carregadas de erotismo e paixão, não há sequer uma cena de nudez explícita. Isso nos leva a refletir se tal recurso é realmente necessário. A diretora faz uso da sutileza, explorando planos-detalhe e alusões ao sexual sem que o ato em si seja exibido. Tudo é tratado com extremo cuidado, e em nenhum momento os atores são sexualizados, apesar da presença constante de cenas de sexo.
Visualmente, o filme apresenta fotografias e enquadramentos belíssimos. Nem sempre esses planos carregam um significado narrativo direto; muitas vezes, parecem existir apenas para serem belos, e cumprem esse papel com excelência. Não considero isso um problema. Em diversos momentos, inclusive, há um uso consciente das cores para expressar sentimentos ocultos e estados emocionais dos personagens.
Um ponto que acredito que poderia ter sido trabalhado de forma diferente diz respeito ao ritmo narrativo. Sinto que o início do filme se estende excessivamente, enquanto do meio para o final a história se acelera de maneira abrupta. Isso gera a sensação de que alguns acontecimentos chegam a determinados pontos sem o devido desenvolvimento. As próprias passagens de tempo não transmitem essa progressão de forma clara, até porque a caracterização dos personagens pouco muda: o tempo passa, mas suas feições permanecem as mesmas.
Dito isso, trata-se de um filme marcado pela sutileza, especialmente no que diz respeito à sexualidade. Apresenta uma trama intensa, visualmente rica, porém com um ritmo que, em determinados momentos, se mostra apressado.



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