Jon Batiste fez de sua estreia no Rock in Rio uma aula de como diferentes tradições musicais podem se encontrar sem perder suas próprias identidades. No Palco Mundo, nesta segunda-feira (7), o pianista americano colocou jazz, soul, gospel, blues e música brasileira dentro da mesma apresentação e construiu um dos momentos mais particulares da programação do festival.
A performance foi conduzida pelo piano, mas esteve longe de ser um show exclusivamente instrumental. Batiste transitou entre diferentes instrumentos, cantou, improvisou e transformou a plateia em parte da apresentação. Ao seu lado, percussionistas brasileiros deram ao espetáculo uma identidade diretamente conectada ao Rio de Janeiro.

A presença brasileira ficou ainda mais evidente com as participações de Nêgah Santos e Ingrid Silva, que dividiram momentos importantes da noite com o artista.
Quando o jazz encontra o samba
Batiste construiu sua carreira a partir do diálogo entre diferentes gêneros. Sua música parte do jazz, mas incorpora elementos de R&B, blues, gospel, soul e pop. No Rock in Rio, essa característica ganhou uma dimensão especial graças à presença de músicos brasileiros.
O repertório abriu espaço para “Mas Que Nada”, clássico de Jorge Ben Jor que se tornou conhecido mundialmente também pela interpretação de Sérgio Mendes. Nêgah Santos assumiu os vocais e trouxe ao palco uma das referências mais reconhecíveis da música brasileira.
O momento também serviu para Batiste apresentar os percussionistas cariocas que participaram do show.
A interação entre o piano e a percussão foi um dos pontos centrais da apresentação. Em vez de tratar a música brasileira como uma simples participação especial, o artista incorporou elementos rítmicos do país à própria construção do espetáculo.
Ingrid Silva leva a dança para o show
A relação com o Brasil também passou pelo corpo.
A bailarina carioca Ingrid Silva voltou ao Rock in Rio para participar da apresentação de Batiste. O encontro ampliou a proposta do músico de transformar o palco em um espaço de diferentes linguagens artísticas.
Ao som de “Chega de Saudade”, Batiste assumiu o piano enquanto Ingrid desenvolveu uma coreografia que aproximou a tradição da Bossa Nova da dança contemporânea.
Em outro momento, a bailarina retornou para “Butterfly”, criando uma das imagens mais marcantes do espetáculo.

A participação não funcionou apenas como um número visual. Ela reforçou uma característica fundamental da música de Batiste: a ideia de que ritmo pode ser experimentado também por meio do movimento.
O piano como centro da narrativa
Mesmo cercado por músicos e convidados, Batiste manteve o piano como principal eixo da apresentação.
Sua performance alternou passagens virtuosas, momentos mais contemplativos e explosões de energia. Em determinado trecho, o músico revisitou “Für Elise”, de Beethoven, levando um clássico da música erudita para dentro de seu universo.
A escolha não foi gratuita. Batiste tem uma relação conhecida com a tradição clássica e utiliza esse repertório como uma das ferramentas para ampliar seu vocabulário musical.
Pouco depois, a apresentação retornou às raízes populares, mostrando a amplitude do repertório que o pianista consegue conectar em uma mesma narrativa.

Nova Orleans e Rio de Janeiro
Existe uma ligação natural entre o universo de Batiste e o Rio de Janeiro.
O músico nasceu e cresceu em Nova Orleans, cidade cuja identidade cultural está profundamente ligada ao jazz, ao blues, ao gospel e às bandas de rua. O Rio, por sua vez, possui uma tradição igualmente marcada pela música coletiva, pela percussão e pela ocupação dos espaços públicos.
Essa conexão apareceu de forma especialmente forte quando os percussionistas brasileiros assumiram protagonismo.
Durante “BIG MONEY”, elementos associados à percussão brasileira se encontraram com a banda de Batiste. O resultado não foi uma tentativa de reproduzir samba, mas uma conversa entre linguagens rítmicas.
É justamente nesse ponto que o show encontrou sua personalidade.
“Isso não é um show. É uma prática espiritual”
Batiste também deixou claro que sua relação com a música vai além da apresentação tradicional.
Durante “Freedom”, o artista afirmou:

“Isso não é um show. É uma prática espiritual.”
A frase sintetizou a atmosfera criada no Palco Mundo. Batiste conduziu palmas, estimulou respostas da plateia e deixou espaço para improvisações.
A apresentação ganhou, assim, uma dinâmica próxima à de uma celebração coletiva. O público não estava apenas diante do palco, mas participando da construção de determinados momentos.
Essa abordagem é particularmente importante dentro da trajetória de Batiste, um artista que sempre tratou a música como instrumento de conexão cultural.
Uma estreia que foge do formato tradicional
Em um festival acostumado a receber grandes produções internacionais, Jon Batiste escolheu outro caminho.
Não houve dependência de uma longa sequência de hits conhecidos pelo público brasileiro. O espetáculo se sustentou principalmente na capacidade do artista de tocar, improvisar e criar conexões entre diferentes referências.
Jazz e gospel encontraram soul. Beethoven dividiu espaço com Jorge Ben Jor. A percussão carioca conversou com a tradição de Nova Orleans. Ingrid Silva transformou música em movimento.
O resultado foi uma apresentação que funcionou justamente por não tentar se encaixar em uma única categoria.
Jon Batiste deixou o Rock in Rio com uma estreia que representou mais do que a chegada de um grande nome do jazz ao maior festival de música do Brasil. Ele mostrou que sua música é construída sobre encontros e que, quando o palco permite que essas influências se cruzem, o resultado pode ser maior do que a soma de suas partes.
No Palco Mundo, o jazz de Nova Orleans encontrou o ritmo do Rio. E Jon Batiste fez dessa conexão a própria linguagem de seu show.


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