Alex Calil, CEO da GR Shows, analisa o crescimento do samba e do pagode e os novos caminhos do mercado musical

O samba e o pagode ocupam um espaço cada vez mais expressivo na indústria musical brasileira, com grandes turnês, festivais e artistas que atravessam gerações. Em um mercado que combina tradição, novas plataformas de consumo e diferentes oportunidades de negócio, a gestão de carreiras e o desenvolvimento de projetos de entretenimento se tornaram peças fundamentais para acompanhar essa expansão.

À frente da GR Shows, o CEO Alex Calil acompanha de perto as transformações do segmento. Com atuação na gestão de artistas como Belo, Pixote e Jeito Moleque, a empresa trabalha no desenvolvimento de carreiras e na criação de projetos que ampliam a conexão entre os artistas e o público. Entre essas iniciativas está o Me Leva Festival, projeto itinerante que reúne nomes do samba e do pagode em diferentes cidades brasileiras.

Em entrevista, Calil analisa o momento vivido pelos gêneros, comenta os desafios de manter artistas consolidados relevantes para novas gerações e explica como o papel do empresário musical se transformou diante das mudanças na indústria. O executivo também fala sobre as perspectivas para o setor e os próximos caminhos da GR Shows.

Confira a entrevista completa:

A GR Shows se consolidou como um dos principais escritórios ligados ao samba e ao pagode no país. Como você enxerga o momento atual desses gêneros e o que mudou no mercado nos últimos anos para que eles ganhassem ainda mais espaço?

Alex Calil: O samba e o pagode vivem um momento muito importante, de expansão e reconhecimento. São gêneros que sempre tiveram uma conexão muito forte com o público brasileiro, mas que hoje conseguem ocupar espaços cada vez maiores, tanto nos festivais quanto nas plataformas digitais e nos grandes projetos de entretenimento. Acho que o mercado passou a entender melhor a dimensão desse público e a força comercial desses artistas. Ao mesmo tempo, os próprios artistas e empresários estão buscando novas formas de apresentar essa música, sem perder a essência. Na GR Shows, trabalhamos há mais de duas décadas nesse segmento e acompanhamos de perto essa transformação. É muito positivo ver o pagode chegando a novos públicos e ocupando espaços que antes pareciam mais restritos a outros gêneros. Isso mostra que existe demanda, profissionalismo e muito espaço para continuar crescendo.

Você trabalha com artistas de diferentes gerações e trajetórias, como Belo, Pixote e Jeito Moleque. Qual é o principal desafio de administrar carreiras já consolidadas e, ao mesmo tempo, encontrar novas formas de dialogar com o público?

Alex Calil: O principal desafio é entender que cada artista tem uma história, uma identidade e um momento de carreira diferentes. Não existe uma fórmula única. Quando trabalhamos com nomes que já construíram uma trajetória importante, como Belo, Pixote e Jeito Moleque, temos a responsabilidade de preservar tudo aquilo que os tornou relevantes, mas também precisamos olhar para frente e encontrar novas oportunidades. Isso envolve pensar em repertório, projetos audiovisuais, turnês, presença digital, parcerias e experiências que aproximem ainda mais o artista do público. O mercado muda muito rápido, e precisamos acompanhar essas mudanças sem tentar transformar o artista em algo que ele não é. Acredito que o segredo está justamente nesse equilíbrio entre respeitar a história e continuar criando. Uma carreira consolidada não significa uma carreira parada. Pelo contrário, é uma base muito importante para construir novos capítulos.

Belo vive um momento de grande exposição e renovação de público. Na sua visão como empresário, o que explica a capacidade dele de atravessar gerações e continuar tão relevante no mercado?

Alex Calil: O Belo tem algo que é muito difícil de construir: uma conexão verdadeira com as pessoas. As músicas dele fazem parte da história de muita gente, estão presentes em relacionamentos, lembranças e diferentes momentos da vida. Isso cria um vínculo que vai além de um lançamento ou de uma tendência. Ao mesmo tempo, ele continua sendo um artista ativo, que desperta interesse e consegue chegar a pessoas que talvez não tenham acompanhado toda a sua trajetória desde o início. A exposição em diferentes plataformas e projetos também contribui para apresentar esse repertório a novas gerações. Como empresário, acredito que o nosso papel é criar oportunidades para que essa força se transforme em novos projetos, sem perder a identidade do artista. O Belo tem uma história muito consistente, e o desafio é continuar valorizando essa história enquanto abrimos espaço para novas possibilidades. Essa combinação entre repertório, personalidade e conexão com o público ajuda a explicar sua longevidade.

Além do gerenciamento de artistas, a GR Shows também está por trás de grandes eventos. O festival Me Leva, por exemplo, percorre diferentes cidades do Brasil. O que vocês aprenderam sobre o público de samba e pagode ao transformar o projeto em um festival itinerante?

Alex Calil: Uma das principais coisas que aprendemos é que o público de samba e pagode tem uma relação muito forte com a experiência de estar junto. Não é apenas sobre assistir a um show, mas sobre encontrar amigos, cantar músicas que fazem parte da própria história e compartilhar aquele momento. O Me Leva Festival nasceu com essa proposta de reunir grandes artistas em um mesmo evento e levar essa experiência para diferentes regiões do país. Ao circular por cidades com características distintas, percebemos como o gênero tem alcance nacional e como existe uma demanda importante por eventos que valorizem essa cultura. Ao mesmo tempo, cada praça tem suas particularidades, e precisamos respeitar isso na escolha dos parceiros, na estrutura e na comunicação. Para nós, o festival também representa uma oportunidade de ampliar o alcance dos artistas e criar novas conexões com o público. O objetivo é continuar desenvolvendo o projeto com consistência, mantendo a qualidade da entrega e fortalecendo a presença do samba e do pagode em diferentes mercados.

Hoje, um escritório artístico precisa pensar muito além da agenda de shows, passando por redes sociais, plataformas digitais, televisão, marcas e grandes projetos. Como mudou o papel do empresário musical diante dessa nova dinâmica da indústria?

Alex Calil: O empresário deixou de olhar apenas para a agenda de shows e passou a ter uma visão muito mais ampla do negócio. Hoje, precisamos entender o posicionamento do artista, as oportunidades de conteúdo, o comportamento do público, as plataformas digitais, as parcerias comerciais e os projetos que podem ampliar sua presença no mercado. Isso exige planejamento, leitura de cenário e uma equipe preparada para trabalhar em diferentes frentes. Na GR Shows, entendemos que a carreira precisa ser construída de maneira integrada. Um show, um lançamento, uma participação na televisão ou uma parceria com uma marca podem fazer parte de uma mesma estratégia, desde que exista coerência com a identidade do artista. Também é importante saber identificar quais oportunidades realmente fazem sentido, porque estar presente em todos os lugares não significa necessariamente construir uma carreira mais forte. O nosso trabalho é justamente conectar talento e estratégia, criando condições para que os artistas desenvolvam seus projetos, ampliem seu alcance e mantenham uma relação consistente com o público ao longo do tempo.

O samba e o pagode vivem uma fase de grandes turnês, festivais lotados e artistas alcançando públicos cada vez maiores. Para onde você acredita que esse mercado está caminhando e quais são os próximos passos da GR Shows dentro desse cenário?

Alex Calil: Acredito que o mercado ainda tem muito espaço para crescer. O samba e o pagode têm uma base cultural muito forte no Brasil, e estamos vendo esse potencial se transformar em projetos maiores, turnês estruturadas, festivais e novas oportunidades comerciais. O próximo passo é continuar profissionalizando o setor, ampliar a presença dos artistas em diferentes mercados e desenvolver experiências que vão além do palco. Também vejo oportunidades importantes na integração entre música, marcas, conteúdo e entretenimento, sempre respeitando a identidade de cada projeto. Para a GR Shows, o caminho é seguir investindo na gestão das carreiras, fortalecendo parcerias e criando novas oportunidades para os artistas que representamos. O Me Leva Festival faz parte dessa estratégia, assim como a busca por formatos que aproximem a música de outros públicos e ambientes. Temos uma trajetória construída nesse mercado e entendemos que crescer também significa inovar, estabelecer boas parcerias e manter a qualidade do trabalho. O nosso objetivo é continuar contribuindo para o desenvolvimento do samba e do pagode, com uma visão de longo prazo e foco na construção de carreiras e projetos sustentáveis.

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