Críticas | Pequenas Coisas Como Estas

Pequenas Coisas Como Estas (Small Things Like These, 2024), longa-metragem dramático, coprodução Bélgica, Estados Unidos e Irlanda, distribuído pela O2 Play, estreia, oficialmente, nos cinemas brasileiros, a partir do dia 13 de março de 2025, com classificação indicativa 12 anos e 97 minutos de duração.

Adaptação cinematográfica sensível e marcante do romance homônimo, escrito em 2020, por Claire Keegan, que aborda com delicadeza as consequências morais das infames lavanderias de Madalena na Irlanda (onde a última do país fechou em 1996).

Dirigido por Tim Mielants, o filme entrega uma narrativa visualmente impactante e emocionalmente densa, centrada na luta interna de Bill Furlong, interpretado pelo oscarizado ator Cillian Murphy.

A trama segue Bill, um comerciante de carvão em uma pequena cidade no condado de Wexford, em 1985. Sua vida cotidiana, aparentemente simples, sofre uma transformação radical quando ele descobre uma jovem trancada em condições desumanas no galpão de carvão de um convento. Este evento desencadeia memórias dolorosas de sua infância como filho de uma mãe solteira acolhida por uma mulher protestante e força Bill a confrontar dilemas éticos profundos.

O filme desenrola sua luta moral enquanto ele pondera entre arriscar a segurança de sua família ou desafiar a conivência silenciosa de sua comunidade com as atrocidades perpetradas pelas freiras.

O roteiro, escrito por Enda Walsh, impressiona por sua economia de diálogos, permitindo que a força da narrativa se manifeste no que não é dito. A direção de Mielants complementa isso com uma câmera sutil e intimista, que captura Bill através de enquadramentos discretos — espiando-o por janelas ou corredores, como se convidasse o público a observar sua crescente inquietação. Frank van den Eeden, diretor de fotografia, cria uma atmosfera que alterna entre a serenidade das festividades natalinas e a tensão sufocante das ruas estreitas da cidade.

O simbolismo permeia o filme, com o carvão servindo como metáfora para os fardos emocionais e morais carregados por Bill. Suas mãos enegrecidas pelo trabalho são um reflexo físico de sua consciência pesada, enquanto as ruas da cidade, ora acolhedoras, ora intimidadoras, representam o conflito entre tradição e mudança.

Murphy, em particular, transmite com maestria a tempestade emocional interna de Bill por meio de microexpressões sutis, solidificando seu talento como um dos grandes atores de sua geração.

Embora o filme ocasionalmente exagere nos flashbacks da infância de Bill, desviando-se da narrativa principal, a força reside no presente da história. A cena em que Bill confronta a temível Irmã Mary, interpretada pela estupenda Emily Watson, é pura tensão. Este confronto encapsula a cumplicidade assustadora entre a igreja e a comunidade, destacando o silêncio coletivo que permitiu que essas instituições florescessem por tanto tempo.

Em resumo, “Pequenas Coisas Como Estas”, é um retrato íntimo e impactante, que mescla com habilidade a simplicidade da vida cotidiana com o peso de questões morais complexas. Com atuações de altíssimo nível, uma direção primorosa e uma fotografia imersiva, o filme se estabelece como uma adaptação essencial e profundamente tocante. É uma história sobre coragem e compaixão.

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