Uma distopia produzida e situada no Brasil, premiada em festivais como os de Guadalajara e Berlim. Com essa pressão, “O Último Azul” chega aos cinemas como mais uma grande produção do cinema nacional em 2025.
Tereza (Denise Weinberg de A Metade de Nós) mora em uma cidade industrializada na Amazônia, mas, aos 77 anos, é convocada oficialmente pelo governo para uma colônia habitacional obrigatória. Onde os idosos devem aproveitar seus últimos anos de vida. Antes do exílio forçado, ela embarca em uma jornada pelos rios da região para realizar um último desejo.
Como na maioria das distopias, o diretor Gabriel Mascaro não disfarça sua crítica, a negligência com a terceira idade e o prazo de validade imposto sobre os idosos é o maior destaque aqui, nos fazendo refletir sobre essa realidade, mesmo que se trate de uma clara extrapolação.
O interessante é observar como o mundo é criado a partir desse exagero do nosso cotidiano. Esse exercício de criatividade dá vida e credibilidade para o que está em tela. Como propagandas sobre o projeto de colônia habitacional, medalhas de mérito por ser “velho” e (meu detalhe favorito) o carrinho do cata-velho, uma carrocinha para recolher os idosos fujões.

Esses são alguns dos elementos que compõem o absurdismo desse universo. Confesso que achei tão divertido que queria mais. Mas essa falta de informação em relação a essa medida de adaptação dos idosos foi, sim, uma escolha, não só pela duração de uma hora e meia, mas também pela forma como a jornada de Tereza é conduzida.
A Epopeia de Tereza para sua liberdade
Imagine descobrir, de uma hora para outra, que sua liberdade acabou? Você seria demitido do trabalho e, em uma semana, teria de se mudar para um local onde viveria até morrer. Tereza recebe essa notícia e, a partir daí, é consumida pelo desejo de voar. Mas por que agora? Porque antes não havia tempo para pensar.
O desejo pela liberdade de voar, que Denise aplica com tanta intensidade em sua personagem, é o que move toda a trama. Por meio de viagens clandestinas, Tereza cruza o caminho de Cadu (Rodrigo Santoro de Carandiru), um barqueiro; Ludemir (Adanilo de Noites Alienígenas), dono do único avião em que ela poderia viajar; e Roberta (Miriam Socarras de María Antonia ), uma idosa vendedora de bíblias que conseguiu comprar sua liberdade.
A divisão desses personagens funciona como passagens de atos, mas acaba destacando especialmente a performance de Rodrigo Santoro. Como o barqueiro solitário, faz uso da baba do caracol azul, que, ao ser derramada nos olhos, abre sua mente e sua visão. A relação construída entre os dois atores é breve, mas calorosa. É possível ver o carinho no olhar deles e como ambos carregam esse curto encontro dentro de si.

Comprar a própria liberdade sendo uma vendedora de sonhos é, no mínimo, curioso. A personagem de Miriam Socarras entra como a última etapa dessa epopeia, com uma construção afetiva que deixa em aberto a interpretação do público. Sua história traz uma crítica mais afiada: em uma extrapolação distópica da nossa realidade, a única liberdade possível é a comprada.
A contemplação tende a ser solitária
Contemplativo, belo e um pouco cansativo, o ritmo de “O Último Azul” não se apressa nem nos planos mais simples. As cenas são tão longas quanto belas, valorizando a paisagem do Amazonas e tornando o filme um dos mais lindos do cinema nacional em 2025. Mas, além disso, seu ritmo lento contrasta com a solidão sentida nesse abandono social.
“O Último Azul” estreia nos cinemas no dia 28 de agosto
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