O amor pode ser vivido, perdido, imaginado e reinventado. Em “Rascunhos de Amores Imaginários”, seu quarto livro, o escritor Marcelo Reis transforma essas diferentes possibilidades em matéria-prima para uma obra que percorre a intensidade dos sentimentos humanos e a maneira como cada experiência amorosa deixa marcas.
O próprio título carrega uma das principais ideias do livro. Para Marcelo, chamar esses sentimentos de “rascunhos” não significa tratá-los como incompletos ou passageiros, mas reconhecer que o amor está em permanente construção.
“A busca pelo amor é eterna! Mesmo quando encontramos um par que se afina ao máximo conosco é necessária uma renovação contínua no sentimento para sua perpetuação. Ao longo da vida estamos sempre rascunhando o amor. Trata-se de uma escrita inacabada que assume várias formas no decorrer do tempo.”
A obra nasce justamente desse movimento. Em seus poemas, realidade e imaginação se encontram para falar sobre experiências que podem ser pessoais, observadas ou reconstruídas pela sensibilidade do autor. A maturidade, segundo Marcelo, também foi fundamental para entender onde termina a experiência e começa a criação.
“Se conhecer é o princípio básico para entender seus sentimentos; seu tamanho e sua profundeza. A partir disso, consigo separar bem o que vivo e vivi daquilo que imagino”, explica.
O livro também incorpora histórias que chegaram ao escritor por meio de outras pessoas. Ao serem transformadas em poesia, essas experiências passam por um novo filtro, misturando relatos, sentimentos e imaginação. “Elas chegam misturadas com meus pensamentos, sentimentos e imaginação”, afirma.
Um livro sobre as diferentes formas de amar
Diferentemente dos três trabalhos anteriores de Marcelo Reis, que tinham como eixo a dualidade humana e temas como dúvidas, sonhos, medos e rotinas, “Rascunhos de Amores Imaginários” escolhe o amor como seu território central.
“Os livros anteriores têm foco na dualidade humana, nos nossos sentimentos, dúvidas, sonhos, rotinas, medos e seus contrapontos, que nos acompanham ao longo da nossa trajetória”, explica. “Rascunhos de Amores Imaginários fala especificamente do amor e suas formas: sua plenitude, sua dor, sua beleza, sua fonte de inspiração.”
Essa variedade aparece na própria maneira como o escritor aborda a paixão, a perda e a invenção. Cada uma dessas experiências produz uma espécie diferente de escrita e exige um mergulho emocional distinto.
Para Marcelo, a paixão costuma nascer de um lugar mais leve. “A paixão é mais fácil, pois, em geral, se traduz em alegria, no novo, na descoberta. É aquele momento único onde os problemas desaparecem e tem-se a vontade de congelá-lo.”
A perda, por outro lado, exige outro tipo de enfrentamento. “A perda traz tristeza, dor, passagens por sentimentos guardados e profundos.” Já a invenção pode carregar uma frustração própria, ligada ao que poderia ter acontecido, mas não aconteceu. “Já a invenção cai muitas vezes na decepção, no contido, no não realizado, não correspondido.”
Entre o real e o imaginário
A fronteira entre aquilo que aconteceu e aquilo que poderia ter acontecido é uma das zonas centrais do livro. Marcelo não trata a imaginação como uma oposição à realidade, mas como parte do próprio processo de elaboração dos sentimentos.
Por isso, mesmo quando parte de experiências concretas, a poesia não precisa permanecer presa aos fatos. Ela pode transformar uma lembrança, ampliar uma sensação ou reconstruir uma história a partir de novas possibilidades.
É também nesse ponto que o título ganha outra camada de significado. Os “amores imaginários” não são necessariamente sentimentos falsos. São possibilidades, projeções, desejos e histórias que também podem existir dentro de quem os imagina.
E, para Marcelo, o amor não pode ser reduzido à ficção.
“O amor não é uma ficção! Ele é uma utopia!”
Essa visão aparece de maneira especialmente forte no poema “Tratado”, cujos versos finais sintetizam sua relação com o tema:
“Tempos de um tempo único,
Presente de outros tempos,
Ainda em tempo
De dar tempo ao tempo.
Em tempo
Não me cansei de amar.”
Uma poesia marcada pela intensidade
O livro também carrega uma dimensão existencial. No prefácio, a escritora Mia Montenegro define Marcelo como alguém “vivo diante da morte”, expressão que o autor associa à ideia de experimentar a existência sem economizar sentimentos.
“A Mia é uma grande escritora e tive o prazer de ter um prefácio incrível feito por ela”, afirma.
Para Marcelo, estar “vivo diante da morte” significa justamente não passar pela existência de maneira automática. “Esta definição é sobre viver intensamente, sobre sentir as grandes dores e os grandes prazeres da vida, sobre não deixar a vida passar em branco, cumprindo uma rotina até a morte chegar.”
Essa intensidade atravessa “Rascunhos de Amores Imaginários”, fazendo com que o amor apareça não apenas como romance, mas como uma experiência capaz de tocar diferentes extremos da existência.
“Tudo isso, esta explosão de emoções vem refletida no livro: na beleza, na dor, na ênfase na vida, na morte. Um universo particular explorado a partir das minhas emoções e percepções por me sentir ‘vivo’.”
Do livro ao audiolivro
A história de “Rascunhos de Amores Imaginários” ganhou ainda uma nova possibilidade de interpretação com a chegada do audiolivro, narrado pelo próprio Marcelo Reis e dirigido por Clower Curtis.
Dar voz aos poemas fez com que o escritor revisitasse os textos por uma perspectiva diferente. “Dar a voz a um poema é trazê-lo à vida. Vê-lo, ouvi-lo, senti-lo em uma nova forma”, conta.
Segundo Marcelo, a experiência também permitiu perceber aspectos dos poemas que ganham outra dimensão quando são falados. “Pude conviver melhor com eles e perceber mais sua força, sua leveza, sua dor e intensidade. Com a narração tudo isso fica mais claro!”
O trabalho de Clower Curtis foi construído a partir de uma imersão no universo do livro. O produtor leu a obra antes das gravações e buscou compreender as particularidades de cada poema.
“Clower é um produtor maravilhoso e alguém de grande sensibilidade. Quando ele realiza um trabalho mergulha profundamente no seu universo e respira aquilo”, afirma Marcelo. “Ele leu o livro antes, entendeu a atmosfera de cada poema e foi capaz de extrair a melhor interpretação de mim, a ênfase mais apropriada em cada palavra e a forma mais adequada de colocar o sentimento poético para fora.”
O resultado também encontrou uma resposta expressiva do público: o audiolivro alcançou o topo da Amazon logo após o lançamento.
Para Marcelo, porém, o significado desse resultado vai além dos números. “Quando a obra finaliza ela deixa de ser pessoal e passa a pertencer ao mundo.”
A partir daí, cada leitor ou ouvinte pode encontrar sua própria história dentro dos poemas. “As pessoas se apropriam dela, dando suas próprias interpretações e se espelhando através de suas vivências.”
O amor como transformação
Se “Rascunhos de Amores Imaginários” começa pela ideia de um sentimento que nunca está completamente terminado, a transformação surge como consequência inevitável dessa experiência.
Marcelo espera que o público termine o livro ou o audiolivro levando consigo justamente essa percepção.
“O sentimento da transformação. Seja qual for o amor vivido, mesmo que com dor, ele sempre vai nos transformar de alguma maneira.”
Mais do que contar histórias de amor, a proposta é provocar uma reflexão sobre aquilo que o sentimento deixa depois que passa. A paixão, a perda, o desejo e até aquilo que nunca chegou a acontecer podem se tornar matéria de transformação.
“Quero que o público enxergue o amor em sua plenitude e como grande fonte de inspiração”, resume Marcelo. “O sentimento que traz a poesia da beleza e da dor.”
Em “Rascunhos de Amores Imaginários”, o amor não chega ao ponto final. Continua sendo escrito, reescrito e imaginado. Talvez porque, para Marcelo Reis, amar seja justamente aceitar que algumas das histórias mais importantes da vida permanecem para sempre em estado de rascunho.



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