Wogue estreia no pop-rap com “A vida vai pra cima” e reflete sobre mercado, redes e composição

Surgir no mercado fonográfico contemporâneo exige mais do que alcance vocal; exige conceito, verdade e uma dose considerável de coragem. A cantora, compositora e produtora carioca Wogue dá o passo mais decisivo de sua trajetória com o lançamento do single “A vida vai pra cima”. A construção do arranjo, que combina refrões pop marcantes à cadência do rap melódico, nasceu de um cruzamento orgânico de referências que acompanham a artista há anos.

A aproximação com o gênero urbano veio de um caminho curioso. “Eu acho que eu sempre consumi muito música pop, mas ao mesmo tempo, como eu também sou fã de cultura oriental, eu também comecei a escutar muitas músicas pop que continham rap na música e eu mesma comecei a me interessar pelo rap — e é um gênero através do trap e do hip-hop que tem crescido muito no Brasil”, explica a artista. A partir desse repertório, Wogue começou a experimentar novas estruturas em estúdio até encontrar a liga ideal para o seu single de estreia. “Acabei sendo influenciada, ouvindo coisas que eu gostava e acabou que se tornaram referências para mim. De alguma forma, eu consegui misturar um pouco isso ao criar uma música que tinha um refrão pop, consegui incluir momentos de rap melódico e encontrei aí essa canção.” Sem pressa para se prender a rótulos rígidos da indústria, ela enxerga a própria sonoridade como um mapa em aberto: “Na verdade, é uma identidade ainda em construção. É uma música de difícil classificação e, até para mim mesma, essa classificação não é tão nítida ainda. Eu não sei exatamente até onde eu posso ir ou qual é o meu lugar, mas estou experimentando e colocando no mundo.”

Essa disposição para testar caminhos ganha uma ancoragem muito precisa no modo como Wogue constrói suas letras. Graduada em Letras e mestre em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio, a palavra para ela não é um mero adorno da melodia, mas a própria espinha dorsal do projeto. “A minha composição é muito focada na experiência do que eu digo, do que eu quero dizer com aquela música. A minha composição parte da mensagem final”, pontua. Enquanto muitos produtores iniciam o processo a partir de uma batida ou harmonia, a artista segue um fluxo guiado pela literatura e pela intenção poética: “Nem todo compositor ou artista que escreve precisa partir da mesma premissa. Ele pode pensar numa melodia, pode começar com um beat. Mas no meu caso, acho que por vir da área de letras, eu sempre associo e acabo tendo que começar um pouco por isso, pela mensagem.”

É justamente essa centralidade da mensagem que sustenta a filosofia por trás de “A vida vai pra cima”. Em tempos onde a convivência digital impõe padrões inalcançáveis de sucesso e perfeição, Wogue propõe um olhar crítico sobre o impacto da comparação constante. “Eu acho que com as redes sociais é sempre fácil a gente achar que a grama do vizinho é mais verde do que a nossa, mas a verdade é que não é assim: tá todo mundo no mesmo barco”, reflete. Para a cantora, desmitificar essa vitrine é o primeiro passo para resgatar o bem-estar real. “O que a gente vê nem sempre corresponde à realidade. É por isso que a gente precisa pensar na felicidade como algo possível para a nossa vida, independente do que você está passando, de onde você está ou de onde quer chegar. É saber que você pode sim viver a felicidade em meio a tudo isso, nos pequenos gestos, nas coisas simples, na aceitação de quem você é e na vivência desse processo.”

Ao questionar a obsessão contemporânea por métricas e validação algorítmica, a artista resume a essência do single de forma contundente: “Em tempos de redes sociais e de toda essa mídia, é importante as pessoas entenderem que elas podem ser felizes e que a felicidade não é um hit. A felicidade não é algo viral enorme. Ela pode ser pequena, pode ser diária, pode ser simples e pode durar pouco — porque depois pode ter uma outra felicidade. Ela pode estar fora do que a gente vê, dentro de nós.”

Pés no chão e leitura apurada da cena definem a forma como Wogue encara essa etapa inicial. Lançar uma faixa de maneira artesanal e autônoma é visto por ela como um rito de passagem essencial para marcar presença na indústria. “Eu tenho expectativas realistas. O meu principal objetivo com esse lançamento é surgir como cantora; eu quero poder existir e encontrar o meu lugar dentro dessa indústria. Não é uma expectativa de ‘agora eu vou lançar e vou chegar sendo a maior estrela’, mas eu quero que as pessoas passem a me reconhecer, a me identificar, e que eu possa ter um nome e um lugar para começar minha carreira.”

A cantora enxerga “A vida vai pra cima” como o ponto de partida de uma construção contínua e consistente. “Eu vejo mesmo como um prólogo. É uma música feita totalmente artesanalmente, de forma independente, e justamente por isso eu entendo que tenho muito espaço ainda para crescer e para aprender. Quero ampliar o meu público e começar a ser reconhecida no meio.”

Esse prólogo abre caminhos para um fluxo de novas criações que já estão sendo trabalhadas. A parceria com o músico e produtor Rodrigo Auad segue como um dos pilares dessa fase, prometendo novidades para os próximos meses. “Eu quero continuar encontrando e aumentando o meu espaço na indústria. Pretendo lançar meus próximos trabalhos, ainda em parceria com o Rodrigo e outros produtores também, então os fãs podem esperar por outras músicas e outras mensagens. E quem sabe criar um show autoral meu ou um álbum. São muitas ideias, mas com certeza vai ter mais música.”

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Written by Daniel

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