Jacqueline Sato expande atuação no audiovisual para também criar as histórias que quer contar

Jacqueline Sato. Foto: Tiago Carvalho

Jacqueline Sato tinha 12 anos quando apareceu pela primeira vez na televisão, à frente do “Sessão Super-Heróis”, programa dedicado a produções japonesas. A estreia precoce foi o primeiro passo de uma trajetória que passaria por praticamente todas as áreas do audiovisual. Vieram a formação em Rádio e TV e na Escola de Atores Wolf Maya, o teatro e, posteriormente, novelas da Globo, como “Além do Horizonte”, “Sol Nascente”, “Orgulho e Paixão” e, mais recentemente, “Volta por Cima”. Entre uma produção e outra, também encontrou espaço nas séries, no cinema e na apresentação, comandando programas como “O Encantador de Cães”, “Encantadores de Pets” e “Bruce Lee: A Lenda”.

Olhando para trás, porém, é “Corações Feridos”, do SBT, que ela aponta como um divisor de águas no início de sua caminhada. Foi sua primeira oportunidade como atriz, conquistada em testes para o papel de Bianca, quando ainda acabara de se formar: “Naquele momento, eu estava recém-formada e com aquele frio na barriga de saber se poderia viver do ofício que eu havia escolhido, e esta aprovação foi extremamente importante para eu me fortalecer e continuar acreditando no caminho que eu estava apenas começando a trilhar”, conta.

Para Sato, aquela escalação teve um peso que ultrapassava a novela: “Realmente muda a vida da pessoa. Vem num momento em que você, por mais que saiba o que quer, ainda tem tantas dúvidas sobre si e sobre as possibilidades, não conhece bem o mercado nem a si mesma enquanto profissional. Essa primeira oportunidade é realmente determinante, ilumina muita coisa que antes vivia na imaginação, na idealização da profissão, e permite que se dê os próximos passos com mais consciência”.

Os anos seguintes trouxeram justamente essa experiência. Hoje, diante de um novo trabalho, a atriz diz lidar melhor com as incertezas que acompanham qualquer começo: “Acho que o nível de ansiedade que sempre vem com o que é novo anda bem melhor. Me sinto cada vez mais presente e preparada para tudo”.

A maturidade, para ela, não eliminou o frio na barriga, mas mudou sua relação com ele: “A cada experiência que tive, superei desafios internos e externos para realizá-las. E isso é uma delícia. A gente aprende que consegue. Tantas e tantas vezes me surpreendi comigo mesma; superei minhas próprias expectativas”.

O aprendizado, acrescenta, também está em atravessar aquilo que ainda não domina: “Ter medo, frio na barriga e, mesmo assim, seguir em frente acreditando em si e no coletivo que está ali reunido para fazer aquele projeto acontecer”.

Da atuação à dublagem

A dublagem abriu outra frente nessa trajetória. Sato deu voz a Melissa Shield, em “My Hero Academia”, Slice, na mesma franquia, e Fujiko Mine, de “Lupin III: O Primeiro”, entre outros personagens.

A experiência, diz ela, exige uma disponibilidade diferente daquela diante das câmeras: “Quando você está sendo o ator na frente das câmeras, você tem maior liberdade. É a primeira vez que aquele personagem sai do papel e ganha corpo. Não há a preocupação de se encaixar em nada, pois tudo está sendo criado ali, naquele momento”.

Na dublagem, a lógica se inverte: “Você cria com base no que outro ator já criou. Você tem que se imaginar dentro da cena já gravada e entregar o seu melhor cabendo dentro da boca e do ritmo que outra pessoa já criou. Super desafiador”.

E foi justamente essa limitação que acabou ensinando algo sobre sua própria atuação: “A confiar no instinto, no tal do ‘gut feelings’, no impulso que vem do corpo. Isso, aliado à técnica bem treinada, de modo que praticamente não se pense no que se está fazendo enquanto se está fazendo, é tudo”.

Essa disposição para experimentar diferentes caminhos também aparece nas escolhas que fez fora da atuação. Ao longo dos anos, a pouca presença de mulheres de ascendência asiática no audiovisual brasileiro e a dificuldade de encontrar personagens que escapassem dos estereótipos passaram a dialogar com sua própria produção.

Esse movimento ganhou forma em “Mulheres Asiáticas”, docu-talk-reality-show que idealizou, roteirizou, produziu e apresentou, e hoje pode ser conferido no Prime Video, pelo Universal+.

Sato não descreve, porém, essa transformação como uma estratégia cuidadosamente planejada: “Busco viver sendo coerente com a minha verdade e isso automaticamente me leva a escolhas que tornam minha trajetória coesa e consistente”.

Para ela, reinventar-se está ligado sobretudo à curiosidade: “Quero sempre que meu desejo seja maior do que meu receio; isso me permite ousar com satisfação”, afirma.

“Acredito que esse ‘se reinventar artisticamente’ vem com isso, com o dar vazão àquilo que pulsa dentro de mim, dar vazão à curiosidade e me deixar fluir pelas mudanças internas e externas, sem me afastar dessa verdade interna que me norteia.”

Nova personagem no cinema

É desse momento que também faz parte “Uma Praia em Nossas Vidas”, próximo longa de Guto Arruda Botelho, ambientado no início dos anos 1980.

No filme, Sato interpreta Fernanda, uma mulher livre e bem-sucedida, que não se encaixa facilmente nas expectativas de seu tempo. Foi justamente esse perfil que a atraiu:

“Ao longo da minha trajetória, a maioria das personagens que fiz eram mais palatáveis, mais fáceis de serem aceitas com simpatia pela grande maioria das pessoas. Ao mesmo tempo, desde sempre busco personagens complexas”, afirma.

Sobre Fernanda, completa: “Ela não tem nada de certinha, não cabe dentro de nenhum estereótipo, é uma mulher livre e bem-sucedida, que desfruta da vida como bem quer”.

A personagem, acredita, pode provocar reações distintas no público: “Algumas pessoas vão se incomodar com ela, outras vão super entendê-la”.

Para uma atriz que começou ainda criança e atravessou diferentes fases da televisão brasileira, talvez seja um bom retrato do momento atual: menos interessada em personagens fáceis de decifrar e cada vez mais atraída por aquilo que permanece reverberando depois que a cena termina.

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